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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Capítulo 1: Introdução Vivemos em uma era em que os títulos acadêmicos e profissionais desempenham um papel crucial na formação da percepção pública sobre a competência e a autoridade de um indivíduo.

 

Capítulo 1: Introdução

 

Vivemos em uma era em que os títulos acadêmicos e profissionais desempenham um papel crucial na formação da percepção pública sobre a competência e a autoridade de um indivíduo. Recentemente, um debate fervoroso emergiu nas redes sociais, suscitando questionamentos sobre o uso do título de doutor por profissionais de diversas áreas, como advogados e médicos. O cerne dessa discussão foi a Resolução COFEN nº 256/2001, emitida pelo Conselho Federal de Enfermagem, que autorizou os enfermeiros a utilizarem o título de doutor, mesmo sem a titulação acadêmica correspondente.

 

Essa resolução, ao permitir que enfermeiros assinem como doutores, lança luz sobre a complexidade do uso de títulos na sociedade contemporânea. A ideia de isonomia e o reconhecimento da autoridade científica profissional são fundamentais para entender por que essa decisão foi tomada. O que está em jogo não é apenas o título em si, mas a maneira como a sociedade percebe e valoriza as diferentes formações acadêmicas e profissionais.

 

Para muitos, o título de doutor é sinônimo de excelência e profundidade de conhecimento, uma credencial que confere respeito e confiança. No entanto, a utilização desse título por aqueles que não possuem um doutorado formal levanta questões éticas e sociais significativas. Como a sociedade deve reagir ao uso de um título que, tradicionalmente, é associado a anos de estudo e pesquisa? Quais são as implicações para a credibilidade dos profissionais que, mesmo sem a titulação, se apresentam como doutores?

 

Neste livro, o especialista, professor César Venâncio, escritor com dezenas de livros publicados, convida os interessados a explorar essas questões de forma crítica e fundamentada. O objetivo é analisar os aspectos legais, sociais e acadêmicos relacionados ao uso do título de doutor. Vamos discutir a relevância dessa discussão para profissionais da saúde, acadêmicos e a sociedade em geral, e como isso pode impactar a percepção pública sobre a profissão.

A estrutura deste livro foi cuidadosamente planejada para guiar o leitor por essa jornada. Iniciaremos com um histórico do título de doutor, sua evolução e significado, antes de nos aprofundarmos nas responsabilidades do pesquisador científico e nas limitações do uso social do título. Também abordaremos os aspectos legais relacionados ao uso indevido do título e suas consequências, culminando em uma análise crítica da Resolução COFEN nº 256/2001.

 

Convidamos você, leitor, a refletir sobre suas próprias experiências e percepções em relação ao título de doutor. Este é um espaço para a troca de ideias, onde suas opiniões e reflexões são bem-vindas. Ao longo da leitura, espero que você mantenha uma mente aberta, considerando diferentes perspectivas sobre a legitimidade e a ética do uso de títulos acadêmicos.

 

Ao final deste capítulo, o autor espera que o leitor se sinta motivado a se engajar nessa discussão, a refletir criticamente sobre o uso de títulos acadêmicos e suas implicações. O que está em jogo é mais do que apenas um título; é a forma como nos relacionamos com o conhecimento, a ética e a credibilidade em nossa sociedade. Vamos juntos explorar essa temática e buscar um entendimento mais profundo sobre o que significa ser um "doutor" nos dias de hoje.

 

A discussão sobre a legitimidade do uso do título de doutor não se limita apenas a uma questão de nomenclatura; ela envolve a essência da confiança que depositamos nas instituições e nas pessoas que as representam. Quando um profissional se apresenta como doutor, o público automaticamente associa essa designação a um nível elevado de conhecimento, a uma preparação que, em muitos casos, requer anos de dedicação e estudo rigoroso. Portanto, a utilização desse título por aqueles que não o possuem formalmente pode gerar confusão e desconfiança, não apenas em relação ao indivíduo, mas também em relação à profissão como um todo.

 

A Resolução COFEN nº 256/2001, ao permitir que enfermeiros utilizem o título de doutor, reflete uma tentativa de reconhecer a importância do trabalho desses profissionais, que muitas vezes lidam com questões complexas e críticas na saúde pública. No entanto, essa decisão também suscita uma série de perguntas: será que essa medida realmente eleva a profissão? Ou será que, ao diluir o significado do título de doutor, estamos contribuindo para uma desvalorização do que ele representa?

 

A relevância social dessa discussão é inegável. O título de doutor, em nossa sociedade, carrega um peso simbólico que transcende a academia. Ele é um marcador de status, uma forma de validação que pode abrir portas e criar oportunidades. Profissionais da saúde, ao utilizarem esse título, podem estar buscando não apenas reconhecimento, mas também uma forma de legitimar sua autoridade em um campo que exige constante atualização e conhecimento. Contudo, o uso indevido desse título pode levar a uma percepção negativa e a um desgaste da confiança pública nas instituições de saúde.

 

Além disso, a questão da ética se torna central nesse debate. Quando um profissional assina um documento como doutor sem ter a titulação correspondente, ele não apenas se coloca em uma posição de desonestidade, mas também contribui para um ambiente em que a verdade e a transparência são colocadas em xeque. A credibilidade é um ativo precioso, especialmente em áreas onde a vida e a saúde das pessoas estão em jogo. Portanto, é crucial que os profissionais reflitam sobre as implicações de suas escolhas na forma como são percebidos pela sociedade.

 

Observe que a legislação penal brasileira define como crime de falsidade ideológica… Observamos um exemplo, nome fictício, “não tenho o título de doutor e assinei um parecer como Dr. José Joaquim da Silva é ilegal?” Resposta-comentário:  (…)Na consulta(fictícia) se responde… Entendi sua preocupação. Assinar um documento com um título que você não possui pode ser considerado uma falsificação de informações. Dependendo do contexto e do país, isso pode ter diferentes implicações legais. No Brasil, por exemplo, a prática de se passar por alguém com um título que não se possui pode ser enquadrada como falsidade ideológica, conforme o artigo 299 do Código Penal Brasileiro, que diz:  Falsidade Ideológica: "Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele deveria constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que deveria ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.". Aos profissionais que não detem título acadêmico de Doutor conquistado em instituição universitária, seja médico, advogado ou enfermeiro. Não podem formalmente usa-lo. É CRIME DE FALSIDADE IDEOLÓGICA. Para evitar problemas, seria recomendável corrigir a situação e informar a autoridade ou instituição responsável que houve um erro na assinatura do documento.

 

Neste livro, ao explorarmos os aspectos legais, sociais e acadêmicos do uso do título de doutor, buscaremos entender não apenas o que está em jogo, mas também como podemos construir um caminho que valorize a ética e a integridade. A análise crítica da Resolução COFEN nº 256/2001 será um dos pilares dessa discussão, pois nos permitirá compreender melhor as motivações por trás dessa decisão e suas consequências na prática da enfermagem.

 

Para uma contextualização vamos transcrever o título e conteúdo da Resolução COFEN nº 256/2001:

 

RESOLUÇÃO COFEN-256/2001 - Autoriza o uso do Título de Doutor, pelos Enfermeiros. 12.07.2001.

O Conselho Federal de Enfermagem-COFEN, no uso de suas competências e atribuições legais;

CONSIDERANDO que o uso do título de Doutor, tem por fundamento procedimento isonômico, sendo em realidade, a confirmação da autoridade científica profissional perante o paciente/cliente;

CONSIDERANDO que o título de Doutor, tem por fundamento praxe jurídica do direito consuetudinário, sendo o seu uso tradicional entre os profissionais de nível superior;

CONSIDERANDO que a exegese jurídica, fundamentada nos costumes e tradições brasileiras, tão bem definidas nos dicionários pátrios, assegura a todos os diplomados em curso de nível superior, o legítimo uso do título de Doutor;

CONSIDERANDO que a não utilização do título de Doutor, leva a sociedade e mais especificamente a clientela, a que se destina o atendimento da prática da enfermagem pelo profissional da área, a pressupor subalternidade, inadmissível e inconcebível, em se tratando de profissional de curso superior;

CONSIDERANDO que deve ser mantida a isonomia entre os profissionais da equipe de saúde, e que o título de Doutor é um complemento, ou seja, um “plus”, quanto a afirmação de um legítimo direito conquistado à nível de aprofundamento de uma prática terapêutica, com fundamentação científica;

RESOLVE:

Art. 1º Autorizar aos Enfermeiros, contemplados pelo art. 6º, incisos I, II, III, IV, da Lei 7.498/86, o uso do título de Doutor.

Art. 2º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação, revogando-se disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 12 de julho de 2001.

 

Gilberto Linhares Teixeira
COREN-RJ Nº 2.380
Presidente

João Aureliano Amorim de Sena
COREN-RN Nº 9.176
Primeiro-Secretario

 

A resolução do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) que autoriza o uso do título de doutor a quem não cursou a pós-graduação específica é, de fato, um tema polêmico. No Brasil, o uso indevido de títulos acadêmicos é regulamentado por leis e resoluções específicas.

Importante, ainda observa que o mesmo COFEN fez publicar a resolução que permite que profissionais de enfermagem que concluíram um curso de doutorado em Enfermagem ou em áreas afins possam utilizar o título de "Doutor". No entanto, essa autorização é estritamente para aqueles que realmente possuem o título acadêmico correspondente. Se alguém que não cursou a pós-graduação estiver usando o título de doutor, isso pode ser considerado uma falsificação de título e pode ter consequências legais. É importante que os profissionais sigam as normas estabelecidas para evitar problemas.

 

Convido você, leitor, a se envolver ativamente nessa reflexão. Pense em suas próprias experiências com títulos acadêmicos e como eles influenciam suas interações com profissionais de diversas áreas. Como você se sente ao saber que alguém se apresenta como doutor sem ter a formação necessária? Essa discussão não é apenas acadêmica; ela toca questões profundas sobre a confiança, a ética e a responsabilidade que todos nós temos em relação ao conhecimento e à sua aplicação.

 

À medida que avançamos neste livro, espero que você se sinta inspirado a questionar, a refletir e a dialogar sobre o significado real do título de doutor em nosso contexto atual. A jornada que estamos prestes a embarcar não é apenas sobre títulos, mas sobre a construção de uma sociedade que valoriza a verdade, a ética e a competência. Vamos juntos explorar essas questões e buscar um entendimento mais profundo sobre o que significa ser um "doutor" nos dias de hoje.

 

A discussão sobre a legitimidade do uso do título de doutor nos leva a refletir sobre a essência da confiança que depositamos nas instituições e nas pessoas que as representam. Quando um profissional se apresenta como doutor, o público, em sua maioria, associa essa designação a um nível elevado de conhecimento, a uma preparação que, em muitos casos, requer anos de dedicação e estudo rigoroso. Portanto, a utilização desse título por aqueles que não o possuem formalmente pode gerar confusão e desconfiança, não apenas em relação ao indivíduo, mas também em relação à profissão como um todo.

Ao analisarmos a Resolução COFEN nº 256/2001, que permite que enfermeiros utilizem o título de doutor, percebemos que essa decisão reflete uma tentativa de reconhecer a importância do trabalho desses profissionais. Muitas vezes, eles lidam com questões complexas e críticas na saúde pública, o que torna seu papel fundamental. No entanto, essa resolução também suscita uma série de perguntas: será que essa medida realmente eleva a profissão? Ou será que, ao diluir o significado do título de doutor, estamos contribuindo para uma desvalorização do que ele representa?

 

A relevância social dessa discussão é inegável. O título de doutor, em nossa sociedade, carrega um peso simbólico que transcende a academia. Ele é um marcador de status, uma forma de validação que pode abrir portas e criar oportunidades. Profissionais da saúde, ao utilizarem esse título, podem estar buscando não apenas reconhecimento, mas também uma forma de legitimar sua autoridade em um campo que exige constante atualização e conhecimento. Contudo, o uso indevido desse título pode levar a uma percepção negativa e a um desgaste da confiança pública nas instituições de saúde.

 

A questão da ética se torna central nesse debate. Quando um profissional assina um documento como doutor sem ter a titulação correspondente, ele não apenas se coloca em uma posição de desonestidade, mas também contribui para um ambiente em que a verdade e a transparência são colocadas em xeque. A credibilidade é um ativo precioso, especialmente em áreas onde a vida e a saúde das pessoas estão em jogo. Portanto, é crucial que os profissionais reflitam sobre as implicações de suas escolhas na forma como são percebidos pela sociedade.

 

Neste livro, ao explorarmos os aspectos legais, sociais e acadêmicos do uso do título de doutor, buscaremos entender não apenas o que está em jogo, mas também como podemos construir um caminho que valorize a ética e a integridade. A análise crítica da Resolução COFEN nº 256/2001 será um dos pilares dessa discussão, pois nos permitirá compreender melhor as motivações por trás dessa decisão e suas consequências na prática da enfermagem.

Convido você, leitor, a se envolver ativamente nessa reflexão. Pense em suas próprias experiências com títulos acadêmicos e como eles influenciam suas interações com profissionais de diversas áreas. Como você se sente ao saber que alguém se apresenta como doutor sem ter a formação necessária? Essa discussão não é apenas acadêmica; ela toca questões profundas sobre a confiança, a ética e a responsabilidade que todos nós temos em relação ao conhecimento e à sua aplicação.

 

À medida que avançamos neste livro, espero que você se sinta inspirado a questionar, a refletir e a dialogar sobre o significado real do título de doutor em nosso contexto atual. A jornada que estamos prestes a embarcar não é apenas sobre títulos, mas sobre a construção de uma sociedade que valoriza a verdade, a ética e a competência. Vamos juntos explorar essas questões e buscar um entendimento mais profundo sobre o que significa ser um "doutor" nos dias de hoje.

 

A análise do título de doutor se estende além de uma simples discussão sobre nomenclatura; trata-se de um exame crítico de como a sociedade valoriza o conhecimento e a formação acadêmica. Em tempos em que a informação é amplamente acessível e as opiniões circulam rapidamente, a forma como os profissionais se apresentam pode influenciar significativamente a percepção pública. É fundamental que a sociedade desenvolva um olhar crítico sobre as credenciais que valorizamos e o que realmente elas representam.

 

Doutorado.

 

Existem no Brasil diversos debates que passam de geração em geração e, na maioria das vezes, não se chega a um denominador comum. Em áreas como a Saúde e o Direito, outros diversos profissionais também são chamados de doutores, alguns, por preferência (Sem o devido diplomar, assinar com este status pode resultar em falsidade ideológica) , até ostentam o título nas redes sociais — e outros por hábito da população(Por hábito é uma cultura).

 

Alegação falaciosa, sem contextualização jurídica.

 

Por outro lado, um dos principais argumentos para que os advogados sejam chamados de doutores é uma lei promulgada no Brasil há quase 200 anos. No longínquo ano de 1827, Dom Pedro 1º decretou que aquele que concluísse os cursos de ciências jurídicas e sociais no Brasil deveria ser tratado como “doutor“. Porém, estudiosos questionam a validade desse decreto.

 

Leia o trecho na íntegra ( LEI DO IMPÉRIO DE 11 DE AGOSTO DE 1827)

“Art. 9.º – Os que freqüentarem os cinco annos de qualquer dos Cursos, com approvação, conseguirão o gráo de Bachareis formados. Haverá tambem o gráo de Doutor, que será conferido áquelles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e sò os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes.” (sic)“:

 

Tal norma citada se refere: (…) apenas a criação dos cursos jurídicos, e aqueles que se formaram na vigência da lei foram contemplados com os direitos do artigo nono.

 

Observemos a norma na integra.

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Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos

LEI DE 11 DE AGOSTO DE 1827.

Vide Decreto nº 1.036A, de 1890

Vide Lei nº 9.394, de 1996

Crêa dous Cursos de sciencias Juridicas e Sociaes, um na cidade de S. Paulo e outro na de Olinda.

Dom Pedro Primeiro, por Graça de Deus e unanime acclamação dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brazil: Fazemos saber a todos os nossos subditos que a Assembléia Geral decretou, e nós queremos a Lei seguinte:

Art. 1.º - Crear-se-ão dous Cursos de sciencias jurídicas e sociais, um na cidade de S. Paulo, e outro na de Olinda, e nelles no espaço de cinco annos, e em nove cadeiras, se ensinarão as matérias seguintes:

1.º ANNO

1ª Cadeira. Direito natural, publico, Analyse de Constituição do Império, Direito das gentes, e diplomacia.

2.º ANNO

1ª Cadeira. Continuação das materias do anno antecedente.

2ª Cadeira. Direito publico ecclesiastico.

3.º ANNO

1ª Cadeira. Direito patrio civil.

2ª Cadeira. Direito patrio criminal com a theoria do processo criminal.

4.º ANNO

1ª Cadeira. Continuação do direito patrio civil.

2ª Cadeira. Direito mercantil e marítimo.

5.º ANNO

1ª Cadeira. Economia politica.

2ª Cadeira. Theoria e pratica do processo adoptado pelas leis do Imperio.

Art. 2.º - Para a regencia destas cadeiras o Governo nomeará nove Lentes proprietarios, e cinco substitutos.

Art. 3.º - Os Lentes proprietarios vencerão o ordenado que tiverem os Desembargadores das Relações, e gozarão das mesmas honras. Poderão jubilar-se com o ordenado por inteiro, findos vinte annos de serviço.

Art. 4.º - Cada um dos Lentes substitutos vencerá o ordenado annual de 800$000.

Art. 5.º - Haverá um Secretario, cujo offício será encarregado a um dos Lentes substitutos com a gratificação mensal de 20$000.

Art. 6.º - Haverá u Porteiro com o ordenado de 400$000 annuais, e para o serviço haverão os mais empregados que se julgarem necessarios.

Art. 7.º - Os Lentes farão a escolha dos compendios da sua profissão, ou os arranjarão, não existindo já feitos, com tanto que as doutrinas estejam de accôrdo com o systema jurado pela nação. Estes compendios, depois de approvados pela Congregação, servirão interinamente; submettendo-se porém á approvação da Assembléa Geral, e o Governo os fará imprimir e fornecer ás escolas, competindo aos seus autores o privilegio exclusivo da obra, por dez annos.

Art. 8.º - Os estudantes, que se quiserem matricular nos Cursos Juridicos, devem apresentar as certidões de idade, porque mostrem ter a de quinze annos completos, e de approvação da Lingua Franceza, Grammatica Latina, Rhetorica, Philosophia Racional e Moral, e Geometria.

Art. 9.º - Os que freqüentarem os cinco annos de qualquer dos Cursos, com approvação, conseguirão o gráo de Bachareis formados. Haverá tambem o grào de Doutor, que será conferido áquelles que se habilitarem som os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e sò os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes.

Art. 10.º - Os Estatutos do VISCONDE DA CACHOEIRA ficarão regulando por ora naquillo em que forem applicaveis; e se não oppuzerem á presente Lei. A Congregação dos Lentes formará quanto antes uns estatutos completos, que serão submettidos á deliberação da Assembléa Geral.

Art. 11.º - O Governo crearà nas Cidades de S. Paulo, e Olinda, as cadeiras necessarias para os estudos preparatorios declarados no art. 8.º.

Mandamos portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente, como nella se contém. O Secretario de Estado dos Negocios do Imperio a faça imprimir, publicar e correr.

Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos 11 dias do mez de agosto de 1827, 6.º da Independencia e do Imperio.

IMPERADOR com rubrica e guarda.    (L.S.)

Visconde de S. Leopoldo.

Este texto não substitui o publicado na CLIBR, de 1827

        Carta de Lei pela qual Vossa Majestade Imperial manda executar o Decreto da Assemblèa Geral Legislativa que houve por bem sanccionar, sobre a criação de dous cursos juridicos, um na Cidade de S. Paulo, e outro na de Olinda, como acima se declara.

        Para Vossa Majestade Imperial ver.

        Albino dos Santos Pereira a fez.

        Registrada a fl. 175 do livro 4.º do Registro de Cartas, Leis e Alvarás. - Secretaria de Estado dos Negocios do Imperio em 17 de agosto de 1827. – Epifanio José Pedrozo.

        Pedro Machado de Miranda Malheiro.

        Foi publicada esta Carta de Lei nesta Chancellaria-mór do Imperio do Brazil. – Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1827. – Francisco Xavier Raposo de Albuquerque.

        Registrada na Chancellaria-mór do Imperio do Brazil a fl. 83 do livro 1.º de Cartas, Leis, e Alvarás. – Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1827. – Demetrio José da Cruz.

Conclusão… não é verdade que uma lei promulgada no Brasil decretou, com validade nos dias atuais, que aquele que concluísse os cursos de ciências jurídicas e sociais no Brasil deveria ser tratado como “doutor“.

 

Na época, sim. Pois, trata-se da Lei Imperial que criou os cursos jurídicos do período imperial. A corrente que questiona nos dias atuais a validade desse decreto é prevalente.

 

Para fins de analise cognitiva e reflexão temática o autor apresenta os termos do “Projeto de regulamento ou estatuto para o Curso Juridico pelo Decreto de 9 de Janeiro de 1825, organizado pelo Conselheiro de Estado Visconde da cachoeira, e mandado observar provisoriamente nos Cursos Juridicos de S. Paulo e Olinda pelo art 10º desta lei”.

 

Do texto:

Tendo-se decretado que houve, nesta Côrte, um Curso Juridico para nelle se ensinarem as doutrinas de jurisprudencia em geral, a fim de se cultivar este ramo da instrucção publica, e se formarem homem habeis para serem um dia sabios Magistrados, e peritos Advogados, de que tanto se carece; e outros que possam vir a ser dignos Deputados, e Senadores, e aptos para occuparem os lugares diplomatico, e mais emprego do Estado, por se deverem comprehender nos estudos do referido Curso Juridicos os principios elementares de direito natural, publico, das gentes, commercial, politico e diplomatico, é de forçosa, e evidente necessidade, e utilidade formar o plano dos mencionados estudos; regular a sua marcha, e methodo; declarar os annos do mesmo Curso; especificar as doutrinas que se devem ensinar em cada um delles; dar competentes instrucções, porque se devam reger os Professores, e finalmente formalisar estatutos proprios, e solido a aproveitamento dos que se destinarem a esta carreira.

Sem estatutos, em que exponham, e se acautelem todas estas circumstancias, não se poderá conseguir o fim util de tal estabelecimento. De que serviriam Bachareis formado, dizendo-se homens jurisconsultos na extensão da palavra, se o fossem só o nome? Não tendo conseguido boa, e pura cópia de doutrinas de sã jurisprudencia em geral, por maneira que utilmente para si, e para o Estado podessem vir a desempenhar os empregos, para que são necessarios os conhecimentos desta sciencia, que sob os principios da moral publica, e particular, e de justiça universal, regula, e preserve regras praticas para todas as acções da vida social, haveria em grande abundancia homens habilitados com a carta somente, sem serem pelo merecimento, que pretenderiam os empregos para os servirem mal, e com prejuizo publico, e particular, tornando-se uma classe improductiva com damno de outros misteres, a que se poderiam applicar com mais proveito da sociedade, e verificar-se-hia deste modo o que receiava um sabio da França (1), da nimia facilidade, e gratuito estabelecimento de muitos lyceus naquelle paiz.

A Falta de bons estatutos, e relaxa pratica dos que havia, produziu em Portugal pessimas consequencia. Houve demasiados Bachareios, que nada sabiam, e iam depois nos diversos empregos aprender rotinas cegas e uma jurisprudencia casuistica de arestos, sem jamais possuirem os principios. E luzes desta sciencia. Foi então necessario reformar de todo a antiga Universidade de Coimbra; prescrever-lhe estatudos novos, e luminosos, em que se regulam com muito saber e erudição os estudos de jurisprudencia, e se estabeleceu um plano dos estudos proprios de sciencia, e as fórmas necessarias para seu ensino, progresso, e melhoramento.

Parecia portanto que á vista de taes estatutos, e das mais provincias, que depois se estaleceram ácerca das faculdades juridicas; e tambem do proveito que destas instituições tem resultado, sahindo da Universidade grandes mestres, dignos e sabios magistrados, e habilissimos homens d'Estado, que aos nossos olhos tem illustrido e bem servido a patria, não era necessario outro regulamento, e bastava, ou para melhor dizer, sobrava que se ordenasse, que o novo Curso Juridico mandado estabelecer nesta Côrte, se dirigisse, e governasse pelos novos estatutos da Universidade de Coimbra com as alterações posteriores.

Assim se persuadiram os autores do projecto de lei sobre as Universidades, que apresentou, e discutiu na extincta Assembléa Constituinte e Legislativa, acrecentando que o Curso Juridico, que no referido projecto se mandava crear logo, e ainda antes de estabelecidas as Universidades, se governasse por aquellas instituições, e novos estatutos, até que pelo andar do tempo, e experiencia, restrigissem, ou ampliassem os Professores o que julgassem conveniente. Esta persuação fundava-se na facilidade a proveitosa instituição dos estudos Juridicos.

Dado porém que se não possa negar, nem a sabedoria dos autores dos referidos estatutos, nem a demasiada cópia de doutrinas que elles contém, por maneira que é de admirar que houvesse em Portugal naquelle tempo de desgraça, e decadencia dos estudos em geral, e particularmente da jurisprudencia, homens de genio tão transcendente que soubessem com tão apurada critica e erudicação proscrever o máo gosto dos estudos, substituir-lhes doutrinas methodica, e luminosa, e crear uma Universidade, que igualou, e a muitos respeitos excedeu a mais celebres da Europa, todavia o seu nimio saber em jurisprudencia, e demasiada erudição de que sobrecarregaram os mesmo estatutos, a muita profusão de direito romano de que fizeram a principal sciencia juridica, á exemplo das Universidades de Allemanha; o muito pouco que mandaram ensinar da jurisprudencia patria, amontoando só em um anno, e em uma só cadeira tudo que havia de theorico e pratico della; a pobreza do ensino de direito natural, publico, e das gentes, (sem se lhe unir a parte diplomatica) e que devia ser ensinada em um só anno; a falta de direito maritimo, commercial, criminal, e de economia politica, que não foram comprehendidas nos estudo, que se deviam ensinar dentro do quinquennio, fazem ver que os referidos estatuto, taes como se acham escriptos, não podem quadrar ao fim proposto de se formarem por elles verdadeiros e habeis jurisconsultos.

Os mesmos autores dos referidos estatutos conheceram tanto que os estudos de direito diplomatico, e de economia politica deviam entrar na faculdade de jurisprudencia que declararam que os Professores dessem noticia delles aos seus discipulos quando conviesse; mas nem isto era estabelecer estudo regular, nem preceitos vagos podiam aproveitar.

A falta de estudos mais profundos de direito patrio foi supprida depois pelo Alvará de 16 de Janeiro de 1805, que deu nova fórma aos mencionados estudo, e ao ensino da pratica do fôro estabelecida pelos autores dos estatutos da Universidade de Coimbra para 5º anno juridico, ficando para o 3º, e 4º anno o ensino do direito patrio, com que mais aproveitados sahem os estudantes neste tempos moderno, quando anteriormente vinham totalmente hospedes nos usos praticos, e sabendo mui pouco de direito patrio, e usa applicação, quando estes eram os estudos em que deveriam ser mui versados, pois que se destinavam a ser jurisconsultos nacionaes.

Se este deve ser considerado o fim primordial dos estudos juridico, salta aos olhos quão capital defeito era pouco tempo que se empregava no estudo de direito patrio, e sua applicação ao fôro. Posto que o estudo do direito romano seja uma parte importante da jurisprudencia civil, não só porque tem sido este o direito de quasi todas as nações modernas, mas principalmente porque nelle se acha um grande fundo do direito da razão, pelo muito que os jurisconsultos romanos discorreram ajudados da philosophia moral; tanto assim que deste copioso manancial tiraram Thomasio, Grocio, e Puffendorfio o que depois chamaram direito natural, e os celebres compiladores do Codigo de Napoleão confessaram ingenuamente, que alli acharam em grande deposito a maior parte regras que introduziram no mesmo codigo; todavia é o direito romano subsidiario ou doutrinal, como em muitas partes dos mesmo estatutos confessaram os seus ilustres autores, e não podia jámais ser ensinado com tanta profusão e em grande parte as nossas leis sejam extrahidas dos romanos, principalmente nos contractos, testamentos, servidões, etc.; ainda que seus compiladores eram mui versados no estudo do direito romano; com tudo é o direito patrio um corpo formado de instituições proprias deduzidas do genio, e costumes nacionaes, e de muitas leis romanas já transvertidas ao nosso modo, e bastava por tanto, que depois do estudo das institutas se explicasse o direito patrio, e que nos lugares de duvidas do direito romano trouxessem os Professores á lembrança o que se tivesse ensinado nas ditas institutas, indicando as leis romanas, onde existe a sua principal doutrina.

Além do que fica dito cumpre observar que a nimia erudição dos autores dos estatutos de Coimbra; a profusão com que a derramaram na sua obra, o muito e demasiado cuidado com que introduziram o estudo de antiguidades e as amiudadas cautelas que só deveriam servir para aclarar, e alcançar o sentido dos difficeis, fizeram que os estudantes sahissem da Universidade mal aproveitados na sciencia do direito patrio, e sobrecarregados de subtilezas, e antiguidades, que mui pouco uso prestaram na pratica dos empregados a que se destinaram.

Os mesmo mestre e doutores, para se acreditarem de sabios perante seus companheiros e discipulos, faziam longos e profundos estudos de direito romano e antiguidade, e seguindo nelles a escola Cujaciana, philosophavam muito theoricamente sobre os principios de direito, e por fugirem o rumo da de Bartholo, Alciato, e mais glosadores e casuitas, ensinavam jurisprudencia mais polemica do que apropriada á pratica da sciencia de advogar, e de julgar. Não foi só nimio estudo de direito romano a causa principal de se não formarem verdadeiros jurisconsultos; foi tambem, como já dissemos, a falta de outras partes necessarias da jurisprudencia, e que, fundadas na razão, preparam os animos dos que aprendem para conseguirem aos menos os principios geraes de tudo, que constitue a sciencia da jurisprudencia em geral, e cujo conhecimento forma os homens para os diversos empregos da vida civil.

Se este é o fim, a que nos destinamos na instituição deste Curso Juridico, se a experiencia já nos tem ensinado e convencido dos incovenientes da pratica seguida; se conhecemos que a jurisprudencia é fillha toda da sã moral; se sabemos que desde os primeiros elementos da ethica, e da moral nos vamos elevando como por degráos ao cimo deste edificio; e se finalmente é da mais simples intuição que as sciencias todas se enlaçam, maiormente as moraes, que, de mistura com as instituições civis, são base da jurisprudencia; porque não aproveitaremos estas lições do saber, e da experiencia, para abraçarmos um novo methodo mais regular, simples, e farto dos conhecimentos necessarios e uteis, e que despido de erudições sobejas, abranja o que é mais philosophico e justo? Deve-se, portanto, sem perder de vista o que há de grande, e sabio em tão famigerados estatutos, cortar o que fôr desnecessario, instituir novas cadeiras para as materias de que nelles se não fez menção, as quaes são enlançadas pelos mais fortes vinculos com a jurisprudencia em geral, e de nimia utilidade para o perfeito conhecimento della, e dirigirmo-nos ao fim de crear jurisconsultos brazileiros, enriquecidos de doutrinas luminosas, e ao mesmo tempo uteis, e que pelo menos obtenham neste Curso bastantes, e solidos principios, que lhes sirvam de guias no estudo maiores, e mais profundos, que depois fizerem; o que é o mais que se póde esperar que obtenham estudantes um curso academico.

Os autores dos mesmo estatutos, no Curso Juridico que regularam, comprehenderam o direito canonico, e por maneira estabeleceram a fórma de estudos de ambas a faculdades juridicas, que os primeiros dous annos são inteiramnete communs aos estudantes dellas, ajuntando-se depois nos annos, e aulas, em que se ensinava o direito patrio, e pratica do fôro. Considerada necessidade de haver um curso de direito canonico, muito bem se houveram prescrevendo aos alummos que se destinavam a faculdade canones o conhecimento das institutras do direito civil, e os das instituições de direito publico, ecclesiastico e de direito canonico aos alummos de direito civil, attenta relação, e affinidade que há em geral entre estes estudos. Comtudo não entrará o ensino da faculdade de canones no Curso Juridico, que se vai instituir. Esta sciencia, toda composta das leis ecclesiasticas, bem como a theologia, deve reserva-se para os claustros e seminarios episcopaes, como já se declarou pelo Alvará de 10 de Maio de 1805 § 6º, e onde é mais proprio ensinarem-se doutrinas semelhantes, que pertencem aos ecclesiasticos, que se destinam aos diversos empregos da igreja,e não a cidadãos seculares disposto para empregos civis.

Como porém convenha a todo o jurisconsulto brazileiro saber os principios elementares de direito publico, ecclesiastico, universal, e proprio da sua nação, porque em muitas cousas, que dizem respeito aos direitos do chefe de governo sobre as cousas sagradas e ecclesiaticas se estribam, convirá que se ensinem os principios elementares de direito publico, ecclesiastico, universal, e brazileiro em uma cadeira, cujo Professor com luminosa e apurada critica e discernimento assignale as extremas dos poderes civil e ecclesiasticos.

Por este ponderoso motivo, e dest'arte se organizam os estatuto, que hão de reger o Curso Juridico, que vai a ensinar-se nesta côrte, o qual abrangerá portanto os conhecimentos que formam o todo da faculdade da jurisprudencia civil.

CAPITULO I.

DOS ESTUDOS PREPARATORIOS PARA O CURSO JURIDICO.

1º Sendo necessario que os estudantes, que houverem de matricular-se nas aulas juridicas tenham a conveniente idade, e os estudos prévios que preparam o entendimento para prosperar nos maiores, nenhum poderá matricular-se sem apresentar certidão de idade, pela qual conste que tem 16 annos para cima, porque só desta época em diante poderão Ter os necessarios preparatorios, e o espirito medrado, e disposto para bem conceber as materias da sciencia, a que se dedicam, e discorrer sobre ellas mais madura reflexão.

2º Juntarão tambem certidão de exame e approvação das linguas latina e franceza; de rhetorica; philosophia racional e moral, arithmetica, e geometria.

3º O conhecimento perfeito das linguas latina e franceza, sobre dever entrar no plano de uma boa instrucção litteraria, para conhecimento dos livros classicos de toda litteratura, é peculiarmente necessario para os estudantes jurista. Na primeira está escripto o digesto, o codigo, novellas, as institutas, e os bons livros de direito romano, o qual, posto que só há de ser elementarmente ensinado neste Curso Juridico, deve de força ser estudado, bem como as instituições e Pessoal José de Mello, e algumas outras obras juridicas de autores de grande nota, que andam escriptas na mesma lingua. E na segunda se acham tambem escriptos os melhores livros de direito natural publico, e das gentes, maritimo, e commercial, que convem consultar, maiormente entrando estas doutrinas no plano de estudos de Curso Juridico, e sendo escriptos em francez muitos dos livros, que devem por ora servir de compendios.

4º O estudo de rhetorica é tambem indispensavel aos que se dedicam á jurisprudencia, porque os advogado que se dedicam á jurisprudencia, porque o advogado deve pelo menos saber a eloquencia do fôro; e a arte de bem fallar, e escrever muito necessaria é aos que houverem de ser Deputados nas Assembléas, ou empregados na diplomacia; e uma vez que a rhetorica se ensine como convem, mais por modelos do que por aridos preceitos, será mui proveitosa aos fins proposto, não sendo tambem indifferente, antes necessaria e util, aos magistrado, que tem muitas occasiões de fallar e escrever.

5º A philosophia racional apura o entendimento e ensina as regras de discorrer, e tirar conclusões certas de principios; o que é assaz necessario a todo o homem litterato, e particularmente ao jurisconsultos, não só porque tem necessidade de saber discorrer com precisão em todas as materias, mas porque sendo certo, que nem todos os casos podem especialmente prevenir-se, e acautelar-se nas leis, de força há de estender-se para casos identicos a identica razão de direito. Parte della é alem disto a arte critica, que ensina a avaliar os quilates das provas, e conhecer onde se encontra a evidencia moral, ou a certeza deduzida do testemunho por documentos, e affirmações verbaes; e a moral, ou ethica, é como a base, ou antes o primeiro degráo para o estudo do direito natural, que é a primeira, e a mais fundamental sciencia, que deve occupar o animo do jurisconsulto, como o primordial assento da jurisprudencia.

6º Não é menos necessario, nem menos util o ensino da arithmetica, e geometria; esta pelo muito que que concorre para se discorer com methodo, clareza, precisão, e exactidão, e aquella porque convem que a saiba, todo o homem, a fim de conhecer o nelhor methodo de conditos, que elle póde prestar nos usos da vida, além disto aproveitam muito particularmente ao magistrado, advogado, deputado, ou diplomata, que no exercicio dos seus respectivos empregos acharão repetidas occasiões de applicar com proveito os principios que tiverem deste dous importantissimo ramos das sciencias mathematicas.

CAPITULO II

DOS EXAMES PREPARATORIOS

1º Todos os que pretenderem matricular-se, requererão ao Director deste estabelecimento, ajuntado ao seus requerimento as attestações que tiverem dos Professores publicos dos estudos, que houvessem frequentado, e de que pretenderem examinar-se; e o Director, nomeado dous Professores peritos nas respectivas materias, fará em sua presença proceder por elle a um rigoroso exame, cuidando muito em que haja a maior merecerem, na certeza que por motivos de equidade ou condescencia mal aproveitarão nos estudos maiores, os que não se avantajaram nos preliminares, que são a chave mestre dos outros.

2º Os examinadores haver-se-hão nos exames das linguas perguntando pelo preceitos geraes de grammatica de cada uma dellas, em que fôr feito o exame, e fazendo traduzir os melhores livros em prosa, e verso, por ser este o meio de se conhecer exactamente o aproveitamento dos examinados na intelligencia da mesma lingua.

3º No exame de rhetorica perguntarão pelos preceitos em geral, e fazendo analysar alguns lugares dos escriptores mais afamados tanto em prosa como em verso, inquirirão onde está o uso dos preceitos da aloquencia, e poesia.

4º Os examinadores de philosophia racional, e moral perguntarão tambem pelas regras da logica em geral, e em particular pelas mais importantes sobre a exactidão do raciocinio, e arte critica, procurando indagar se o examinando as sabe sómente de cór, ou está em estado de fazer o uso conveniente dellas; e na metaphysica perguntarão pelas mais importante, como a liberdade, e immortalidade d'alma, a existencia de Deus, e semelhantes. E na ethica examinarão nos pontes mais essenciaes, e que mais relação tem com o direito natural, á fim de conhecerem se os examinandos tem idéa do conteúdo nesta parte da philosophia, em que relações tem com a moral e sciencia dos costumes.

5º Os de arithmetica, e geometria examinarão en qualquer das operações da arithmetica, exceptando com tudo as theorias um pouco mais subidas das progressões e logarithmos; e para se certificarem de que o estudante não desenvolve só materialmente, e sem convicção os diversos calculos numericos, perguntar-lhes-hão nos lugares proprios pelos principios geraes da numeração que lhes farão applicar aquilo de que se tratar, exigindo sempre a razão de tudo. Depois o examinando tirará por sorte uma proposição de geometria plana, dando-se-lhe algum tempo para a ver, será obrigado a demostral-a, e a sattisfazer a todas as questões que lhe forem propostas, demostrando tambem as proposições subsidiarias, que vierem a proposito, se os examinadores julgarem isso necessario para certeza do seu juizo. E porque póde acontecer, que um estudante dotado de grande memoria mas carecendo principios, decorre a demostração, e assim illuda os examinadores, e obtenha a approvação que não merecer, será conveniente que se lhe inverta a posição da figura, e até se mudem as letras della, sanando-se deste modo aquelle inconveniente.

6º Os examinadores serão dous, e votarão com Presidente, e sómente darão por approvados os que o forem por dous votos, accedendo o do Presidente quando houver empate nos dos Professores.

7º Quando já houverem Lentes das cadeiras, que hão de compôr o Curso Juridico, poderá o Director nomear um d'entre elles, que mais versado lhe parecer nos conhecimentos dos estudos menores, para presidir á estes exames; o qual se haverá pela maneira acima estabelecida.

CAPITULO III

DO PLANO DOS ESTUDOS DOS CURSO JURIDICO, TEMPO DELLE E DAS MATERIAS QUE SE DEVEM ENSINAR EM CADA ANNO.

1º O curso completo de direito será de cinco annos, em cada um dos quaes se ensinarão as materias, que podem formar um jurisconsulto brazileiro, seguindo a ordem mais natural e methodica, á fim de que os estudantes vão como levados por degráos, e pela mão até o fim desta carreira.

2º No primeiro anno juridico haverá duas cadeiras, uma em que seensine natural e publico universal, e outra das institutas do direito romano.

3º Como o direito natural, ou da razão, e a fonte de todo o direito, porque na razão apurada, e preparada por boa e luminosa logica, se vão achar os principios geraes e universais para regularem todos os direitos, deveres, e convenções do homem, é este estudo primordial o em que mais devem de ser instruidos os que se destinam ao estudo da jurisprudencia. Por este motivo o Professor desta cadeira, dando as noções geraes do que se entende por direito natural, ou da razão, tratará de geraes das leis, cujo complexo fórma este codigo da natureza: dará no principio um resumo da sua historia, e da intelligencia que delle tiveram os antigos e modernos, e a verdadeira, e genuina que deve ter, afastado os erros dos que com confusão escreveram; e fazendo um resumo historico das compilação de Grocio, Puffendorfio, Wolfio, e Thomassio, que apanharam do direito romano muitas regras, que a philoshofia dos jurisconsultos tinha suggerido como leis da razão, observará que convem considerar todas as relações dos homens, não em abstracto, nem como entes separados, e dispersos, mas como cidadãos que já vivem em sociedade.

4º Extremará com séria critico, e cuidado o direito natural do publico, e das gentes, para não haver confusão nas regras que tiver de ensinar, limitando-se o direito natural ao regulamento dos direitos e obrigações dos homens entre si, e o publico ás relações sociaes, e aos deveres da massa geral da nação para com o soberano, e deste para com ella.

5º Servir-se-há para este ensino, emquanto não fizer um compedido methodico, claro e apropriado aos conhecimentos do seculo, do direito natural de fortuna, ajuntando-se para as suas explicações dos principios luminoso de Heinecio, Felice, Burlamaqui, Wolfio e Cardoso, no projecto para para o codigo civil, não sendo todavioa escravos das idéas destes autores, mas escolhendo só delles, e dos mais que modernamente tem escripto sobre o mesmo objecto, o que puder servir para dar aos seus ouvintes luzes exactas, e regras ajustadas, e conformes aos principios da razão, e justiça universal, e aos direitos, e deveres dos cidadãos, por maneira que os ouvintes fiquem convencidos de que as regras explicadas não tem outros motivos maos do que os conselhos e preceitos sãos, e exactos da razão ilustrada, e não autoridade alguma extrinseca.

6º Será mui breve e claro nas suas exposições. Não ostentará erudição por vaidade, mas aproveitando o tempo com lições uteis, trará só de doutrina o que fôr necessario para perfeita intelligencia das materias, que ensinar, e trabalhará quanto lhe fôr possivel por terminar no mesmo anno ouvir todas as lições de direito publico.

7º Acabadas as lições de direito natural, passará o Professor ás do direito publico universal, e particular, e explicará as materias que essecialmente se comprehenderem nesta parte da jurisprudencia publica: dará uma idéa clara do que entenderam por este direito os tempos modernos, apresentando em resumo a historia desta parte da sciencia juridica.

8º Como porém a base essencial deste direito seja o complexo dos direitos e obrigações das nações para com os Soberanos, e reciprocamente, cumpre que com muito discernimento se mostre aos discipulos a natureza dos mesmos direitos, e obrigações, e se estabeleçam os seus verdadeiros limites, do que depende a tranquilidade publica, e a consolidação do governo.

9º E sendo hoje mui discutidas estas materias, as explicará com madureza e cuidado, servindo-se d'entre os livros modernos, de Brie, Perrault, e de outro qualquer eu parecer mais apropriado para o uso das escolas, unindo-lhe as doutrinas de muitas outros homens celebres deste ultimos tempo. Exporá mais nas sua lições as diversas formas de governo, já simples, já composto, para chegar gradualmente a expôr o em que consiste o governo mixto, constitucional, e representativo, fazendo conhecer em theoria, e com apllicação ás modernas constituições, o nexo e a influencia de cada uma das diversas fórmas simplices nos governos mixtos; e sendo o ponto mais essencial destes governos a divisão dos poderes que constituem a soberania, e o equilibrio entre elles mesmo, explicará com muito cuidado esta materia essencial e importantissima, para o que muitos soccorros lhe pretará fritot na sciencia da publicista.

10º Desta materia, mais que em muitas outras, é nescessario formar quanto antes em compendido, que contenha com precisão, e clareza as doutrinas que formam o direito publico na sua verdadeira intelligencia, e com applicação aos modernos principios. E sendo justo que não só tenham os estudantes perfeito conhecimento dos principios liminosos, que foram adpotados na Constituição do Imperio, mas que entrem bem na intelligencia delles, o Professor se aproveitará da mesma Constituição para explicação do direito publico, particular, nacional com o discernimento, e sizo que exige tão importante objecto.

11º Na Segunda cadeira deste anno explicará o Professor as institutas do direito romano. Como este tem servido da base á maior parte dos codigos civis das nações modernas, e muito delle se aproveitaram os compiladores das leis que nos regem, deve haver um conhecimento bem que elementar, deste direito comalgu ma extensão e profundidade. Exporá por tanto o professor uma historia em resumo do direito romano, notando as diversas épocas digesto, do codigo, e das novellas; do uso, e autoridade que tem tido entre nós, explicando que foi sempre subsidiario, e doutrinal, que nunca teve autoridade extrinseca, como mui doutamente observaram os autores dos estatutos da Universidade de Coimbra, authenticamente o declarou a Lei de 18 de Agosto de 1679.

12º Como porêm não só muitas das nossas leis são tiradas do mesmo corpo de direito romano, mas até elle contém muitos casos definidos que na falta de lei nacional devem servir no fôro, quando forem fundadas em boa razão, covem estudar as doutrinas geraes, que vem nas ditas institutas, e fazer nos lugares parellos menção do que se acha decidido no preferido codigo, digesto, e novellas, explicando com clareza os principios geraes das descisões romanas, para conhecer - se o que merece consideração, applicação por se fundar em direito natural, e o que deve ser repprovado por não Ter esta base, e vir sómente dos costumes do povo romano, ou de outras quaesquer origens, que o tornem inadmissivel, e fara mui discreta selecção para serem omittidas aquellas doutrinas, que por semelhante motivos devam ser regeitadas.

13º Contendo as mesmas institutas muitos deste defeitos é mais apropriado o uso do compendio de Waldek, que as resumiu, rejeitando o que já não convinha estudar, em quanto o Professor não fizer novo compendio, no qual observe, quanto lhe seja possivel um methodo semelhante, e demais lhe acrescente o uso pratico, que cada doutrina tem, ou pode vir a ter pelas razões já dadas, pondo no fim de cada paragrapho ou capitulo, que são ou não reprovadas pelo direito brazileiro as materias que nelle se contiverem, á maneira do que observou Heinecio no compendio das Pandectas, onde aponta sempre em lugar compete o que se observa - jure Germano - Haver-se-há porem o referido Professor com muita cuidado nesta explicação de observancia, poquanto não convido estudar o direito senão pelos motivos exposto, releva que os estudantes o ouçam e aprendam sempre como fito na sua applicação á pratica do fôro. O Professor apontará aos seus ouvintes os livros onde se acham as doutrinas que houver expendido, para as irem estudar com mais vastidão, e tirando-se deste Curso juridico estudo profundo, que na Universidade de Coimbra se faz do corpo do direito romano em dous annos consecutivso, além do tempo que se despende com as institutas, é mister que os estudantes tenham sempre um cabal conhecimento das isntituição mais geraes do mesmo direito, como melhor se explicará quando se tratar do 3º e 4º anno.

CAPITULO IV

DOS ESTUDOS DO SEGUNDO ANNO

1º No segundo anno haverá, tambem duas cadeiras, Na 1ª se explicará o direito das gentes, universal, e pacticio e o diplomatico. O Professor della dará primeiramente uma idéa geral desta parte da jurisprudencia, e da historia dos seus progressos; e mostrando a intelligencia diversa e equivoca que lhe deram os antigos, exporá com sufficiente clareza, e restrição o verdadeiro ponto de vista, em que ella deve ser encarada, servindo-lhe como de simples como de simples these, que é o direito natural applicado ás nações, idéa geral e luminosa, fundada no principio de que com estes corpos moraes se verificam as mesmas regras, e justiça universal, que tem lugar de uns cidadãos para com outros.

Mostrará que os autores antigos não trataram como convinha, havendo muitas obras em que é explicada com bastante confusão, como sevê em Grocio, Puffendorfio e outros; e bem que em Watel se encontrem mais bem organizadas e regulada a lei das nações e por isso lhe convenha o titulo de direito das gentes, que deu aos seus livros, comtudo ainda nelles apparecem confundidas com estas materias as do verdadeiro direito publico; e até modernamente o escriptor da sciencia do publicista chamou ao direito natural, direito das gentes. Pelo que, antes de entrar na explicação do verdadeiro direito das gentes, expenderá com toda a cautela a exaucta noção do direito das gentes universal, distinguido-o do pacticio e particular. Por isso que o primeiro contem preceitos, e regras de justiça universal, emquanto o segundo tem só por objecto a particular, a qual provém dos tratados celebrados entre algumas nações e quem vem a terem força pelo ajuste reciproco dellas.

1º Servirá de compedio para estas lições o resumo de rayneval, ajudando de watel, Heinecio, Felice e outros, para o direito das gentes universal e pacticio, e o Professor dará uma idéa geral do que constitue este segundo direito; fazendo uma resenha dos principaes tratados que se tem tornado como uma Segunda lei das nações, aproveitando-se para este objecto da obra de Malby no direito publico da Europa e da colleção geral de Dumond e Martens.

2º Continuará o mesmo Professor explicando aquella parte do direito das gentes, que se chama diplomatica e contém as verdadeiras regras hoje em dia assentadas pelas nações em particulares tratados, que regulam não só as isenções e privilegios dos agentes diplomaticos, suas ummunidades, os diversos gráos da sua representação; etiquetas de côrtes, e ceremonias publicas; fórmas das diversas cartas de crença, e de outros papeis ministeriaes, mas tambem as maximas geraes e especiaes da politica, e das negociações diplomaticas. Servirá de compedio para estas doutrinas o direito das gentes de Martens, ajudado do manual diplomatico do mesmo autor e das obras de Plassan e Isambert, e de outras desta natureza, e que há mui grande cópia.

3º O Professor da 2ª cadeira explicará do direito publico, maritimo, commercial. Quanto á primeira parte, mostrará em que consiste este direito publico maritimo que é deduzido dos preceitos do direito das gentes, e das especulações maritimas, e convenções das nações navegadoras, e guerreiras, separando-o, e distinguindo-o do dieito commercial, com quem todavia tem mui estreitas ligações. Fará ver como elle se acha nas relações politicas dos povos, entra nas discussões diplomaticas, e preside á manutenção da justiça, e equidade na distingui a França, e quanto se deve ás ordenanções de Luiz XIV, e seus sabios commentadores, e que conhecendo-se a sua importancia se instituiu a poucos annos uma cadeira particular para este ensino em uma das Universidades de França (1).

4º Tratará das questões de grande monta, que se tem suscitado a este respeito, e explicará a doutrina importante dos direitos das nações neutras á respeito das belligerantes, dos mares territoriaes, pescarias, outros deste genero. Servirá de guia e de compedio á obra de Azuni sobre o direito maritimo, ajudado pelas doutrinas de Boucher, Peuchet, Lampredi, Hubner, Galliani, Codigo das Prezas, e outros.

5º Seguirá o mesmo Professor dando lições de direito commercial, nas quaes exporá com muita precisão e clareza o que respeita á historia deste direito, á natureza em geral das materias, que lhe pertencem, e quanto finalmente foi desconhecido das nações antigas, e quasi ignorado no direito romano, onde poucas decisões se encontram analogas a esta materia, e fará muito por que a sua explicação seja regulada pelos principios de direito, mostrando que as decisões tem fundamento nelle e não em simplices factos, e arestos; e bem que em algumas nações, como a Inglaterra, tenham elles observancia, no mesmo arestos se vai encontrar os solidos principios de razão e justiça universal, pelos quaes se dirigiram os julgadores, que os lavraram.

6º Servirá de compedio o Codigo francez de Commercio pela sua brevidade, e clareza, e universalidade de doutrinas, ajudando-se o Lente das muito boas obras que há sobre este objecto, como o Consulat del Mare, Traité des Assurances, Abot, sendo recommendaveis entre todas as de Pardessus e Boucher sobre o direito commercial, e principalmente as so sabio autor do direito mercantil, que muito bem ajustou as regras geraes ao direito mercantil nacional.

CAPITULO V

DOS ESTUDOS DO TERCEIRO ANNO

1º Neste anno e no seguinte devem os respectivos Professores explicar todo direito patrio, publico, particular, e criminal, porquanto preparados os estudantes com as materias elementares dos primeiros dous annos, em que aprenderão as doutrinas das primitivas fontes de direito, iniciados nas maximas geraes do direito natural, publico, e das gentes, e na s instituições do direito romano, estão aptos para estudarem a fundo o que é da legislação patria em geral. Para que os alunos possam vir a ter um perfeito conhecimento de toda a legislação patria, convem que o estudo della se distribua entre o 3º e 4º anno, havendop em cada um delles dous Professores.

2º Haverá portanto neste anno dous Professores. O primeiro começará por dar em resumo a historia do direito patrio, remontando-se aos principios a monarchia portugueza, referindo as diversas épocas do mesmo direito, os diversos codigos, e compilações que tem havido, sua particular historia, e tudo mais que fôr necessario para que os estudantes conheçam a fundo a marcha, que tem seguido a sciencia do direito patrio até o presente. Depois desta explicação, que deve ser resumida, e conter só o essencial, dando tambem uma abreviada noticia das fontes proximas do direito, passará o Professor a explicar o direito publico patrio, definindo-o competentemente, e extremando-o do particular, e regulando-se pelas disposiçoes geraesdo direito publico universal, fará applicação dos seus principios ao que ha semelhante na legislação patria, e dará a conhecer aos seus ouvintes a constituição antiga da monarchia, e a actual do Imperio, fazendo as explicações convenientes dos seus diversos pontos mais essenciaes, expondo com clareza a fórma da legislação antiga e moderna; a administração da Justiça e Fazenda; a organização dos Tribunais actuaes, e dos que se lhes hão de substituir; a natureza dos tributos, e imposições publica; modo de as lançar, e arrecadar; a jurisdicção suprema para o estabelecimento das leisl, creação, e provimento de officios, e instrucção publica.

3º na explicação e todos estes artigos, e dos mais que são relativos ao direito publico, se regulará o Professor pelos escriptores mais modernos, e philosophos, como fica explicado no cap. 3º § 4º, fazendo applicação particular de suas doutrinas ao que é decidido nas leis patrias, e ensinando o uso que do direiro publico universal tem feito os supremos legisladores da monarchia, e ora o Imperio do Brazil, para satisfazerem nos seus Estados aos importantissimos fins da mesma legislação universal da natureza, pois é muito conveniente que os juristas saiam da escola bem aproveitados em cousa de tanta importancia.

4º Algumas das mencionadas doutrinas vem explicadas no Direito Publico Patrio de José de Mello, que se podem e devem aproveitar. Como porém este livro fosse escripto em tempo em que não eram ainda bem conhecidos os principios do direito publico philosophico, é de necessaria obrigação formam Lente um compendio resumido, e a apropriado a este objecto.

5º O mesmo Professor explicará tambem os principios elementares do direito publico ecclesiastico, universal e nacional, porque é absolutamente necessario saber-se esta parte da jurisprudencia, pois nella se ensinam os direitos do governo civil em geral sobre materias da igreja, ocorrendo muitas vezes casos desta natureza, que os advogados devem defender, e os magistrados resolver, cumpre que os conheçam, e tanham sciencia dos motivos, e razões em que elles se fundam, e em que é tambem estribado o direito publico ecclesiastico brazileiro. Para ensinar esta materia ha o compendio de Gmeinero sobre o direito publico ecclesiastico universal, que se póde ajudar das doutrinas de muitos outros sabios dessa mesma ordem, como Fleury, Bohemero, e outros; e para o direito publico ecclesiastico nacional servirá o capitulo inscrpto - De Jure principis circa sacra - que vem no direito publico de Paschoal José de Mello, acrescentando o Professor o mais que achar espalhado nas ordenações e leis, que depois tem sido promulgadas.

6º O segundo Professor explicará o direito patrio particular, e convindo que os estudantes juristas tenham como um systema de toda a legislação patria, de modo que senhores de todo elle, possam governar-se no estudo do vasto corpo da jurisprudencia patria, servir-se-ha o referido Professor das instituições de direito patrio de Paschoal José de Mello, dividindo-se estes compendio pelos Professores do 3º e 4º anno, por tratados - De Jure personarum, e - De Jure rerum, e no segundo os - De obligationibus et actionibus, e - De Jure criminali - Além de boa ordem das materias, e systemas de principios, que se encontram neste livro, tem a vantagem de ser este systema corforme ao que seguiram os compiladores das institutas do direito romano, que se mandar ensinar no primeiro anno, e além disto o autor das institutas do direito patrio seguiu o methodo de trazer as doutrinas de direito romano correlativas ás instituições patrias, o que muito conduz para o perfeito conhecimento do direito patrio.

7º O Professor explicará não só os textos da ordenação, que vierem no dito systema, explorando-os com toda a clareza, e individualização, fazendo conhecer quaes são os de origem portugueza, quaes deduzidos da fonte pura do direito natural, e publico universal, e quaes enfim os deduzidos de leis romanas, combinando não só os lugares parallelos, e aplanando as difficuldades, que se encontrarem, mas tambem acrescentando as leis posteriores, que as modificaram, ou revogaram, e a intelligencia que se lhes tem dado no uso pratico do fôro. Quando as leis forem deduzidas de direito romano, dará uma idéa geral dessa legislação que tem na pratica e fôro patrio.

8º Exporá o uso moderno que entre nos se faz, ou deve fazer daquellas doutrinas, e dos inconvenientes que se encontram na sua applicação, se os houver, fazendo conhecer as interpretações boas, ou más, que das mesmas leis tem feito os imperitos commentadores das leis patrias, mostrando que fóra da discreta interpretação usual, deve só servir de regra a genuina e textual intelligencia, fundada nos principios luminosos da razão ilustrada, e nas regras do solido direito patrio.

9º Explicará mais a jurisprudencia, que está determinada para os casos omissos na legislaçãopatria, de maneira que em materias civis sirva o que está disposto em direito romano, quando fôr conforme á boa e sã razão, ou ao direito natural, e quando fór a materia economico - politico - commercial, a legislação que já aprenderam relativa a estas partes da jurisprudencia, e seguida na pratica das nações illustradas.

CAPITULO VI

DOS ESTUDOS DO QUATRO ANNO

1º O primeiro Professor explicará as materias acima indicadas, pelo tratado inscripto - De obligationibus et actionibus. - Em todas as doutrinas nelle comprehendidas seguirá o mesmo methodo prescripto ao Professor do 3º anno. Quanto chegar ao tratado - De actionibus - terá occasião de explicar mais largamente muitas das doutrinas do direito romano. porquanto são as acções nominadas, ou innominadas, deduzidas das obrigaçoes, e estas oriundas de contractos, quasi contractos, delictos, quasi delictos, que tem seu assento no corpo das leis romans, d'onde vieram para o uso moderno da jurisprudencia patria. Comvem muito que os Professores, além de ahi explicarem toda a sua natureza, e relações e a materia que lhes eé correspondente em direito, mostrem o uso moderno, que ellas tem no fôro, servindo-se dos optimos livros de Strikio, e Bohemero - De actionibus - , ondese acham descrptos os principaes attributos de cada uma, e os pontos com que se devem illidir ou contestar, merecendo tambem lugar pela sua brevidade exactidão, o portuguez Caminha - De libellis.

2º Acabada a explicação das materias das obrigações, e acções, passará o Professor ao tratado - De Jure Criminali - , e depois de expôr a historia do nosso fôro criminal, as diversas crises por que tem passado, e o seu estadeo actual, proporá um systema de direito criminal mais philosophico, e regulando pelos elementos de uma critica bem apurada, no qual fará ver o que é de justiça, e utilidade nas penas, mostrando que é maxima elemetar em um systema de legislação criminal o não ficar impunido o delicto, e do damno por elle causado á sociedade. Dará idéa de um systema de processo criminal, regulando segundo os principios das nações mais polidas, e dos melhores escriptores desta materia, e em que se ajuntem simplicidade, e exactidão na indagação dos delictos, com a menor oppressão do accusado, sem se offenderem illegalmente as garantias da liberdade individual, seguindo as suas doutrinas, e principialmente as celebre filangieri, que d'entre todos foi talvez o unico que ajustou a philosophia ao que mais póde verificar-se na pratica, aproveitando-se tambem as doutrinas de becaria, Bentham , Pastoret, Bernarde, Brissot, e outros.

3º Dará uma explicação do processo criminal por jurados, referindo em recurso a historia de sua origem: a applicação que tem tido nas nações antigas, e modernas, dos motivos que a justificam, e o tornam util aos accusados, e proveitoso ao bem da sociedade, sendo estes os que fizeram adptar na Constituição do Imperio; servindo-se das doutrinas explicadas pelo mesmo Filangieri, Cottu, Saint Aignan, e Aragão.

4º Mostrará quanto o systema das nossas leis criminaes, quer na fórma do processo, quer na classificação dos delictos, e determinação das penas, se afasta deste justo regulamento, pelas idéas do tempo em que foi escripto; e pela falta que então havia dos conhecimentos luminosos do presente seculo, e servindo-se tratado explicará o systema criminal patrio, e o uso que delle se deve fazer aclarando as reflexões, que a este respeito judiciosamente faz o autor do mesmo tratado, que muito bem applicou a nossa jurisprudencia as doutrinas philosophicas dos melhores autores já conhecidos no seu tempo.

5º O segundo Professor deste anno lerá economia politica, porque, já preparados com os conhecimentos anteriores, tem os discipulos o espirito mais apto e medrado para comprehender as verdades abstractas e profundas desta sciencia. Dará aos seus ouvintes um a idéa clara, e do que por ella se deve entender, explicando lhes que o seu principal objeto é produzir, fomentar, e augmentar a riqueza nacional. Extremal-a-ha da politica, e de todas as outras partes da jurisprudencia em geral, mostrando a differença que existe entre cada uma dellas e a primeira. Fará ver por via de uma historia resumida a origem, progressos, o actual estado desta sciencia, que andando espalhada, e confundida entre as outras, de tempos modernos pra cá, começou a formar uma sciencia particular. Dará noticia das diversas seitas dos economistas, dos demasiadamente liberaes, dos que segem o systema commercial, ou restricto, e dos que trilham uma vereda média, e dos motivos que justificam a cada um em particular. Fortificará suas doutrinas com o uso das nações illustradas, fazendo ver mais por preceitos accommodados á pratica, do que por theorias metaphisicas e brilhantes, o uso que della se deve fazer, para augmentar os mananciaes da publica riqueza. Servirá que compendio o celebre cathecismo de J. B. Say, que contendo verdades simplices, elementares, e luminosas, e que podem fortificar-se com as doutrinas mais amplamente expedidas no tratado de economia politica do memo autor, é um livro proprio para servir-se-ha das obras de Smith, Maltus Ricardo, Sismondi, Silmondi, Godwen, Storch, Ganih e outros, bem como dos opusculos do sabio autor do direito mercantil, para dar ás verdades concisamente expendidas no mencionado cathecismo toda a extensão, de que são suscptiveis.

CAPITULO VII

DO QUE É COMMUM AOS PROFESSORES DO TERCEIRO E QUARTO ANNO

1º Sendo regulados os estudos do Curso Juridico em ordem a formar-se um consummado jurisconsulto brazileiro, e devendo consistir a pericia deste não só em saber os preceitos da jurisprudencia, mas tambem e particularmente na judiciosa pratica e applicação dos mesmos preceitos, convem que se vão desde logo afazendo os estudantes ao habito de applicarem os conhecimentos theoricos á pratica de advogar, e de julgar. Por este motivo devem os Professores de ambos estes annos mostrar aos seus discipulos o uso pratico que tem no fôro as doutrinas que ouviram, e expender as divesas maneiras, por que se empregam tanto no fôro civil, como no criminal.

CAPITULO VIII

DOS ESTUDOS DO QUINTO ANNO

1º Haverá neste anno tambem duas cadeiras. O Professor da 1ª se occupará em explicar por analyse alguns textos; e principiando por duas das leis romanas, que mais celebre forem ou por sua doutrina, ou pela applicação que poderem ter no fõro patrio, passará depois a nalysar alguma decisão patria do corpo das ordenações, ou algumas leis.

2º Nestas analyses mostrará origem jurudica da materia; a justa combinação de principios elementares de direito natural, que lhe são relativas; a jurisprudencia analoga das nações polidas, e a applicação que tem no fôro nacional, acostumando assim os ouvintes não só a chegarem ao perfeito conhecimento das leis, plo methodo analytico, como a escreverem pelo mesmo methodo as dissertações, e fazendo-lhes adquirir a pratica para as allegações de ponderação, que houverem de fazer no fõro, e causas celebres.

3º Ensinará tambem a hermeneutica juridica, ou a arte de interpretar as leis, para que conhecendo os ouvintes as diversas especies de interpretações, possam perfeitamente usar dellas nos textos difficieis ou complicados, e estabelecerá os limites da que toca ao jurisconsulto, advogado, ou magistrado. Fará ver que authentica é só propria do legislador, e que lhe ficou pertecendo pela celebre disposição da Lei de 18 de Agosto de 1769, e mui bem explicada na Constituição do Imperio. Servir-se-ha o Professor na explicação dos principios da hermeneutica em geral, e especialmente da juridica do tratado de hermeneutica do celebre Eckard e outros; mas principalmete lhe servirá de guia não só a já citada Lei de 18 de Agosto de 1769, como o tratado de interpretação de Paschoal José de Mello.

4º O Professor da segunda cadeira deste anno occupar-se-ha na exposição do uso pratico de direito, e explicará por conseguinte todas as materias que lhe são relativas,a fim de que os estudantes fiquem certos da maneira, por que praticamente hão de usar das doutrinas, que aprederam no estudo as leis patrias.

5º Começará por dar uma historia resumida do processo judicial, civil, e criminal, que tem havido entre nós, expondo a sua origem, variações que tem tido, males que tem produzido, e quanto por elles tem padecido a administração da justiça, pela má intelligencia que os praxistas tem dado a algumas das leis que o estabeleceram, e por alguns defeitos intrisecos dellas.

6º Mostrará com individualização e clareza como muitas das cautelas e formulas introduzidas para garantia do direito de propriedade, e da liberdade individual dos cidadãos, pelo abudo se tem tornado em tropeços, e enredos, que dammam a expedição dos processos, e trazem prejuizos, e inconvenientes aos direitos dos litigantes.

7º Distinguirá o processo civil do criminal, e o ordinario do summario, expondo os commodos, e inconvenientes que ha entre um e outro, e as partes essenciaes que nelles se devem conter, extremendo entre ellas as que de força são impreteriveis, e as que se tem introduzido desnecessariamente.

8º Depois se explicando e expendido tudo quanto ha relativo a estas partes do processo, não se contentará só com esta theoria, e pois que o fim da instituição desta cadeira, é fazer versados na pratica do fôro os estudantes, reduzirá com exactidão a ella a maior parte das suas lições. Para este fim nomeará d'entre os estudantes os dous contendores, autor, réo, escrivão, e advogado, em primeira instancia, e escolhendo uma questão que lhe parecer mais apropriada, fará que o advogado do autor proponha a acção, e deduza o libelo, e o do réo a contrariedade, ou excepção que convier, e seguindos os termos, que a lei prescreve para as audiencias, e passando-se ás provas no tempo competente, arrazoarão a final os dous advogados, e o Juiz proferirá a final a sua sentença.

9º Esta será embargada, ou appellada para instancia superior, e deferindo-se os embargos pelo Juiz da Primeira sentença, antes que passe esta a ser appellada, e a ensinar o que se pratica na instancia superior, explicará toda a natureza e occasião dos agravos de petição ou instrumento, e auto do processo, o fim por que os instituiu a lei, e os abusos que delles se tem feito.

10º Levado o processo á segunda instancia, por meios de appellação ou agravo ordinario: cuja natureza explicará, nomeará para juizes della d'entre os estudantes quantos forem necessarios segundo a lei, e depois se farão os actos necessarios até final sentença.

11º Como na lei ha tambem o processo de revista admittida nos casos na mesma assignalados, fará o Professor observar o mesmo que nos anteriores, nomeando as pessoas necessarias até a final decisão.

12º No processo criminal se hão de praticar com as defferenças relativas as mesmas fórmas acima expostas, e o Professor fará ver aos seu ouvintes a differença que vai de um a outro processo, para que muito concorrerão as doutrinas que aprenderam nos annos antecedentes.

13º Tanto em um como em outro processo, á medida que forem apresentando os nomedos advogados os diversos artigos, razões, e os que servirem de Juizes as sentenças, o Professor far-lhes-ha ver os defeitos, erros e faltas que houveram, emendando-as para que vão conformes a direitos, e neste exercicio aproveitem para se tornarem habeis advogados e juizes.

14º E como verdadeira sciencia pratica não consiste só em saber formalizar os diversos artigos, razões finaes e sentenças, e outros actos judiciaes, mas tambem em muitos escriptos extrajudiciaes, mas tambem em muitos escriptos extrajudiciaes, como escripturas e testamentos, procurações, etc.; deve o mesmo Professor faze-os compôr pelos estudantes, a fim de os saberem fazer, e conhecerem as cousas que são da essencia de semelhantes papeis, e os motivos por que devem ser incluidas e os que sem rigorosa necessidade sem tem introduzido, sobrecarregando de palavras escusadas os instrumentos publicos, que devem sempre ser simplices, claros e precisos.

15º Para entreter nestes exercicios praticos os estudantes da aula, e para diversificar as materias, serão tantas as demandas instituidas a esse fim quantas poderem haver segundo o numero que é necessario de autores, réos, advogados e juizes, procurando sempre que hajam processos civis e tambem criminaes, e adestrando os mesmos estudantes tambem em compor os requerimentos que são necessarios, não só para instituir as demandas civis e criminaes, mas tambem para os incidentes que occorrerem.

16º Para compendio desta aula, e para ensino das materias que devem saber os estudantes relativas a este objecto, servirá a obra ou tratado de processo escripta pelo Professor Peniz, ajuntando o Lente as observações, que os seus conhecimentos e pratica lhe tiverem ministrado, ou para notar os defeitos dos praxistas, e erros do fôro, ou para confirmar a praxe nelle seguida por ser conforme com a lei, recommendando tambem a observancia das regras, que assim estiverem conformes com as determinações de direito.

CAPITULO IX

DAS MATRICULAS

1º As matriculas começarão no principio de mez de Março, fazendo-se pelo Secretario um livro competente, rubricado pelo Director. Nelle se escreverão os nomes dos pretendentes e de seus pais, sua patria e idade. Precederá despacho do Director, o qual o não concederá sem lhe serem apresentadas as certidões de idade, e de approvação de todos os exames preparatorios.

2º Nos primeiros cinco annos, contados do começo litterario do Curso Juridico, permittir-se-ha os estudantes o poderem matricular-se no 1º anno juridico sem o exame de arithmetica e geometria, sendo porém obrigados a fezel-o em qualquer tempo, que lhes fôr conveniente, antes do acto da formatura, sem o qual não serão admittidos a ella. E esta determinação, ou excepção da regra geral tem motivo em que actualmente se não acharão preparados os estudantes, que desejarem entrar neste Curso, e portanto passados os referidos cinco annos ninguem mais será admittido sem o mencionado exame, na fórma do paragrapho antecedente.

3º No fim do mez de Outubro, em que findará o anno lectivo, se fará a segunda matricula para a verificação da primeira, e para constar assim da resistencia dos estudantes em todo o anno lectivo, fazendo-se o competente termo de encerramento.

4º Em cada uma das referidas matriculas pagará o estudante a quantia de 25$600, que será applicada para as despezas do estabelecimento, apresentando o competente conhecimento do thesoureiro que se nomear.

CAPITULO X

DOS EXERCICIOS PRATICOS DAS AULAS

1º As aulas devem começar logo no mez de Março, assim que findarem as matriculas, e acabarão no fim do mez de outubro.

2º Em cada uma dellas durarão as lições por espaço de hora e meia. O Professor gastará a primeira meia hora em ouvir as lições, e o mais tempo em explicar o compendio.

3º No sabado de cada semana, haverá um acto, em que tres estudantes defenderão, e seis perguntarão sobre uma materia, que d'entre as explicadas naquellas semana o Professor desgnar na vespera. Os nomes dos que devem entrar neste acto se tirarão por sorte de uma urna, onde devem entrar os de todos os estudantes da aula. Os primeiros tres que sahirem serão defendentes, e os outros seis arguentes, competindo dous deste a cada defendente pela ordem com que sahirem os nomes da urna.

4º No fim de cada mez darão os Professores aos seus respectivos discipulos um ponto, escolhido entre as doutrinas que lhe houver explicado, para uma dissertação por escripto em lingua portugueza, na qual terá lugar de notar o progresso dos conhecimentos, e o bom gosto de escrever dos estudantes, e servirão estas dissertações, do mesmo modo que as sabbatinas e lições, para o juizo que de cada um deve formar o seu Professor.

5º Haverá Continuos de confiança, os quaes tendo lista de todos os estudantes matriculados, apontarão as suas faltas, e os Professores farão tambem suas lembranças para as conferirem com as dos Continuos, e se conhecer afinal se o estudante aproveitou o anno pela sua frequencia, e pode ser admittido a exame.

6º Quinze faltas sem causa, e quarenta ainda que justificadas sejam, bastam para fazerem perder o anno, não devendo prevalecer motivo de qualidade alguma para relevar desta perda o estudante que tiver as mencionadas faltas.

CAPITULO XI

DAS HABILITAÇÕES E DOS PONTOS PARA OS EXAMES

1º Findo o anno letivo, e feita a segunda matricula, haverá uma Congregação geral dos Lentes, na qual se tratará das habilitações dos estudantes. Alli por tanto, á vista do livro das matriculas, e das listas dos Continuos conferidas com as dos Professores, se decidirá quaes dos estudantes ter perdido o anno, e quaes o aproveitaram, e estão nos termos de serem admittidos a exame, e tambem se designarão os Lentes que hão de examinar, marcando-se os diversos termos que deverão formar, a fim de se obter a melhor ordem possivel nestes trabalhos.

2º Formar-se ha uma lista de todos os estudantes habilitados, segundo a ordem dos annos, e antiguidades das matriculas, assignando-se o dia e hora para exame de cada um.

3º O ponto será tirado na vespera do exame, fazendo-se de modo que o estudante tenha vinte e quatro horas para estudar. Os Lentes de cada anno alternadamente serão presentes quando os seus discipulos tirarem o competente ponto, e o Secretario da Faculdade assistirá tambem para as devidas cópias para serem enviadas aos examinadores.

4º Os estudantes do 5º anno deverão ter quarenta e oito horas para estudaremo seu ponto, porque são estes exames mais complicados que os outros.

5º O estudante, que não comparecer no dia e hora, que lhe tiver sido assignalada para tirar ponto, ficará para o fim de todos os seu respectivo anno.

6º Os Lentes de cada anno combinados arranjarão os pontos, em que devem ser examinados os seus respectivos discipulo, incluindo nelles doutrinas de ambas as cadeiras, e as de mais importancia. Estes pontos deverão sujeitar-se á approvação da Congregação geral dos lentes, sem a qual não poderão entrar na urna.

CAPITULO XII

DA FORMA DOS ACTOS

1º Finda a segunda matricula, começaram os actos e os Lentes dos diversos annos presidirão alternativamente aos exames dos seus discipulos. Nos 1º, 2º, 3º e 4º anno, haverá dous examinadores, cada um dos quaes argumentará por espaço de meia hora sobre as materias do ponto.

2º No fim do exame, ou exames, virá o Secretario da Faculdade á aula, onde elles se tiverem feito, trazendo o livro destinado para os termos de approvação e reprovação, e fechadas as portas votarão os Lentes por escruvação , fechadas as portas cotarão os lentes por escrutinio com a letra A ou R, signal de approvação ou reprovação. O Secretario abrirá a urna, e lavrará logo o competente termo da decisão que achar, o qual será assgnado pelo Lentes examinadores e Presidente.

3º Entender-se-hão totalmente reprovados, sem excepção de anno, os estudantes que tiverem dous RR, e simplesmente approvados os que tiverem um só. Estes poderão matricular-se nos annos seguintes; mas os primeiros no caso de quererem continuar o Curso Juridico, serão obrigados a frequentar de novo o mesmo anno, em que houverem sido reprovados de todo; succedendo porém que sejam assim reprovados dous annos consectivos, não poderão ser mais admittidos a frequentar terceira vez o mesmo anno.

4º No 4º anno, feito o exame, e sendo approvado o estudante, receberá o gráo de Bacharel, que lhe será conferido pelo Presidente do acto, precendendo juramente de ofender e guardar a Constituição do Imperio.

5º No 5º anno serão tres os examinadores, que hão de pergunatr na materia do ponto, e o Presidente argumentará na dissertação, que o examinando deve fazer sobre um objecto, que para esse fim lhe sahirá tambem por sorte. Durará este exame duas horas, e cada argumento será de meia hora.

6º A dissertação será feita em portuguez, e plo methodo analytico, recommendado no cap. 8º § 2º para as analyses do 5º anno.

7º Este acto deve ser o amis rigoroso, porque é o ultimo que faz o estudante para ser Bacharel formado, e merecer o respectivo titulo, com o qual póde exercer os mais importantes empregos do Estado.

CAPITULO XIII

DO GRÁO DE DOUTOR

1º Se algum estudantes jurista quizer tomar o gráo de Doutor, depois de feita a competente formatura, e tendo merecido a approvação nemide discrepante, circumstancia esta essencial, defenderá publicamente varias theses escolhidas entre as materias, que aprendeu no Curso Juridico, as quaes serão primeiro apresentadas em Congregação; e deverão ser approvadas por todos os Professores. O Director e os Lentes em geral assistirão a este acto, e argumentarão em qualquer das theses que escolherem. Depois disto assentando a Faculdade, pelo juizo que fizer do acto, que o estudante merece a graduação de Doutor, lhe será conferida sem mais outro exame, pelo Lente que se reputar o primeiro, lavrando-se disto o competente termo em livro separado, e se passará a respectiva carta.

2º As cartas, tanto dos Doutores como dos Bachareis formados, serão passadas em nome do Director, e pro elle assignadas, e levarão um sello proprio, que lhe será posto por ordem do Professor, que houver dado o gráo.

CAPITULO XIV

DAS CONGREGAÇÕES

1º Além dos casos ordinarios já mencionados, ajuntar-se-hão todas as vezes que o Director julgar conveniente. Tudo o que fôr tendente ao bom andamente e prosperidade deste estabelecimento, e assentado em Congregação, será proposto a Sua Magestade Imperial pela Secretaria de Estado competente, a quem se deve dirigir o Director.

2º A Congregação será sempre presidia pelo Director, e na sua falta pelo Lente mais graduado.

3º Será Secretario della o Professor substituto mais moderno, e n' um livro rubricado pelo Director escrevará as actas de tudo que se decidir , as quaes serão assignadas pelo mesmo Director , e plos Professores que se acharem presentes.

CAPITULO XV

DOS PREMIOS

1º Acabadas as actas haverá ainda uma Congregação, a qual fechará os trabalhos do anno lectivo.

2º Nesta Congregação se tratará se conferir premios a dous dos estudantes de cada anno, que pela sua frequencia, lições, dissertações, actos, e até por sua conducta, mostraram ter mais merecimento, Os premios serão de 50$000 cada um.

3º Os Professores proporão para os premios aquelles dos seus respectivos discipulos, que julgarem mais dignos, e procedendo-se á votação por escrutinio, se conferirão os premios por uniformidade de votos. E como ninguem possa estar tanto ao facto da capacidade dos estudantes como os seus proprios Professores, merecerá particular consideração na distribuição dos premios a informação e parecer dos mesmos Professores.

4º Não sendo de rigorosa necessidade, nem convido que haja premios em todos os annos do Curso Juridico, quando em alguns delles não houverem estudantes de distincto saber e merecimento, em tal caso os Professores daquelle anno não farão proposta alguma para premios.

5º Se acontecer que em algum anno os Professores encontrem mais de dous estudantes igualmente dignos de premio, deverão propôr a todos, e se depois a Congregação se decidir por unanimidade afavor dos proposto, tirar-se hão á sorte os dous que deverem ser promovidos.

CAPITULO XVI

DAS FERIAS

1º Haverá ferias geraes, que durarão desde que se acabaram todos os actos até o fim do mez de Fevereiro, devendo começar o novo curso no mez de março, e no dia immediato ao em que findarem as matriculas.

2º Além destas haverão as do Natal, que começarão na vespera delle, até dia de Reis inclusive, e as da Semana Santa, que comecarão no domingo de Ramos até o da Pascoela, e fóra delles só serão feriados os domingos e dias santos, e os que estão marcados modernamente para os Tribunaes, além das quintas feiras de todas as semanas, que não forem dias santos.

CAPITULO XVII

DO DIRECTOR

1º Sendo necessario para dirigir e conversar a boa ordem dos estudos juridicos que haja quem vigie na execução, e observancia de tudo que se acha determinado nos estatutos, e bem assim cuide em promover, e fiscalisar a exacta observancia de todos os preceitos e regras nelles estabelecidas, e proponha as providencias, que a pratica mostrar serem necessarias, ou para reformar algumas das regras determinadas, ou acrescentar a ellas o que fôr justo e util, haverá um Director, que tenha toda a autoridade, e jurisdicção precisa para se conseguirem os fins propostos.

2º Será nomeada para este emprego pessoa conspicua por sua profissão e jerarquia, e pelo seu saber, probidade, e prudencia.

3º Vigiará com assiduo cuidado em todas as cousas relativas a este estabelecimento, procurando principalmente que se observem com muita exctidão estes estatutos, maiormente na parte que diz respeito ao ensino, seriedade, e ordem das aulas, e dos actos.

4º A elle se dirigirão todos os requerimentos dos estudantes, quér seja para se acha determinado acerca das matriculas, e mais andamento regular dos estudos, quér para outros objectos que sobrevenham.

5º A estes requerimentos deferirá por si só em casos ordinarios, ouvindo por informação qualquer dos Lentes, ou o secretario, segundo a materia exigir, e nos que forem de amior monta decidirá em Congregação ordinaria, ou extraordinaria, como fica referido no capitulo 14 § 1º.

6º Presidirá aos exames preparatorios, emquanto não houverem lentes, a quem possa incubir deste encargo.

7º quando para a decisão de algum negocio fôr necessaria qualquer representação ao governo, a fará pelo secretario de Estado dos negocios do Imperio; bem como fará tambem qundo entender que convem á boa ordem, e prosperidade deste estabelecimento, expondo o que julgar a propriado ao fim do progresso dos estudos juridicos.

8º Dará pela mesma Secretaria de Estado todos os annos, no fim do Curso Juridico e exames, uma conta circumstanciada do estado, em que se acharem os estudos juridicos, e do aproveitamento ou deleixo dos Professores e estudantes.

9º E' tambem imcubencia do Director o regular as horas para as lições das diversas aulas, dispondo-as por maneira que de manhã tenham lugar todas sem se encontrarem umas com outras, bem como para todos os outros actos e exercicios deste curso.

CAPITULO XVIII

DA HERARQUIA DOS PROFESSORES

1º Os Professores do Curso Juridico serão contemplados com todas as honras e prerogativas de que gosam os da Universidade de Coimbra, segundo as leis existentes.

2º As suas antiguidades serão contadas das datas de sua nomeações, e entre os nomeados n' um mesmo dia, pelas graduações que já tiverem.

3º Regerão aquellas cadeiras, para cujas materias se reputarem mais aptos, sem que isto offenda o direito de antiguidade ou graduação, que tenham pelos empregos, que exerciam antes da sua nomeação.

4º Passarão de umas para as outras cadeiras, quando isso convier ao apriveitamento dos que frequentarem o Curso juridico.

5º Além dos dez Professores, que hão de reger as dez cadeiras do Curso Juridico, haverão mais tres lentes substitutos para supprirem as falts que aquelles tiverem por qualquer justo impedimento.

6º Vagando alguma das sobreditas cadeiras ordinarias, será nomeado para ella o substituto mais antigo, e para o lugar deste a Congregação proporá um Doutor, ou Bacharel formado, em que concorram saber, probidade, e bons costumes.

CAPITULO XIX

DO SECRETARIO E MAIS EMPREGADOS

1º Haverá um Secretario para o expediente do Curso Juridico, como já fica mencionado, e para os despachos do Director, certidões, e mais arranjos deste estabelecimento; e terá um Official para o ajudar, o qual servirá ao mesmo tempo de Guarda-livros, e as suas incumbencias serão ao principios reguladas pelo Director.

2º Haverá dous Continuos, que servirão para apontar as faltas dos estudantes, tirar nas sabbatinas os nomes dos mesmos, e para todo o mais expediente. A divisão dos trabalhos destes empregados pertencerá ao Director.

3ºHaverá mais um Porteiro, que terá a seu cargo abrir e fechar as portas das aulas á hora marcada, e cuidará no asseio e limpeza das aulas, e de todo o edificio, onde ellas forem estabelecidas: haverá mais algum guarda, ou guradas, que no arranjo deste estabelecimento parecerem necessarios ao Director, o qual fará a conveniente proposta pela Secretaria de Estado competente.

Rio de Janeiro em 2 de Março de 1825.

 

Nos dias atuais os títulos acadêmicos são regulados pela Legislação de 1996, a LDB. As bases do atual Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) foram estabelecidas pelo Parecer Sucupira de 1965, que se baseou, em grande medida, na experiência e no modelo norte-americano para propor uma pós-graduação stricto sensu, escalonada e hierarquizada, com 2 (dois) níveis de formação: Mestrado e Doutorado. Sucupira atribuiu a essa pós-graduação o objetivo precípuo de formação das novas gerações de docentes para o sistema da Educação Superior e para a pesquisa.

 

A pós-graduação, no Brasil tem o Parecer CFE nº 977, de 3 de dezembro de 19652, relatado no então Conselho Federal de Educação (CFE) pelo Conselheiro Newton Sucupira, como seu documento conceitual e normativo inicial. Esse Parecer recebeu homologação ministerial, na vigência da Lei Federal nº 4.0243, de 20 de dezembro de 1961, que fixava as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (a primeira Lei de Diretrizes e Bases). Sucupira conceitua a pós-graduação criando as expressões “sensu stricto” e “sensu lato” para diferenciar os programas de Mestrado e Doutorado (sensu stricto) dos cursos de especialização (sensu lato).

 

 

 

Em resumo, a pós-graduação “sensu stricto” deveria:

 

a)      ser de natureza acadêmica e de pesquisa e, mesmo atuando em setores profissionais, devem ter objetivo essencialmente científico (por contraste, a especialização, geralmente, tem sentido eminentemente prático-profissional);

 

b)      conferir grau acadêmico (a especialização concede certificado); e

 

Assim o principal argumento para dizer que bacharel em direito não é doutor, é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, para uma pessoa com nível superior completo ser considerada doutora ela deverá ingressar em um curso de pós-graduação (doutorado), mesmo que não tenha passado por um mestrado ou curso de especialização.

 

Assim em educação superior no Brasil, temos:

 

Bacharel- No Brasil, o bacharelado é concedido a quem concluiu o ensino superior e é válido na maior parte dos cursos de graduação, como engenharia, letras, direito, economia, medicina e comunicação, entre outros. Bacharéis podem praticar a profissão, mas não lecionar.

 

Licenciatura - É outra forma de concluir a graduação, mas essa capacita o estudante a trabalhar como professor na academia. Embora um licenciado já possa dar aulas em curso superior, é improvável que ele seja contratado por uma universidade sem dar sequência à carreira acadêmica, com cursos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

 

Mestrado - É um curso de pós-graduação que possui entre dois e cinco anos de duração e que concede o título de mestre. No final do curso, o mestrando deve apresentar uma tese de dissertação a a respeito de um tema de sua escolha e defendê-la diante de uma banca de especialistas.

 

Doutorado - Assim como o mestrado, capacita o acadêmico a desenvolver estudos e pesquisas mais abrangentes sobre o campo científico que escolheu em sua graduação. Os critérios para entrar e concluir o doutorado costumam ser mais exigentes do que os do mestrado.

 

Ph.D. - No Brasil o título é equivalente ao de doutor. Os requisitos variam em cada país, mas, de qualquer jeito, é necessário ter um excelente currículo acadêmico e um histórico de publicações constantes.

 

MBA - “Master in Business Administration” é um curso de especialização em administração de empresas. Diferentemente das outras pós-graduações, o MBA pode ser feito por estudantes graduados em qualquer área.

 

Nesse contexto, o papel das instituições acadêmicas e profissionais é crucial. Elas devem ser as guardiãs da ética e da integridade, assegurando que o uso de títulos seja feito de maneira responsável e transparente. Isso implica em promover uma cultura de respeito ao conhecimento e à formação, bem como em educar tanto profissionais quanto a população sobre a importância da titulação adequada.

 

Por fim… No contexto internacional o debate internacional sobre a formação pós-graduada, especialmente sobre o Doutorado, foca no impacto sobre das transformações que ocorrem na própria organização da pesquisa acadêmica e não acadêmica e no mercado de trabalho para os seus egressos. Classicamente, o Doutorado era concebido como um ciclo de formação individual, em que o candidato deveria comprovar conhecimento e domínio da pesquisa cientifica (básica ou aplicada) numa determinada área de conhecimento e em face de um projeto próprio individual. A pesquisa tem se tornado um empreendimento essencialmente coletivo, focado em temas complexos que demandam a colaboração de pesquisadores em grandes equipes multidisciplinares, operando em redes nacionais e internacionais. A formação do doutorando se dá, crescentemente, em tais ambientes de colaboração que demandam disposição para compartilhar experiências e o aprendizado, capacidade de transcender aos limites da própria disciplina e o cumprimento de tarefas sob coordenação. A orientação torna-se, neste contexto, tarefa compartilhada e o trabalho, em si, precisa ser desenvolvido como contribuição para um projeto maior. Assim, formar para e pela pesquisa passa a exigir, além de domínio de conhecimento e de técnicas de pesquisa, soft skills como aptidão para o trabalho em grupo, visão multidisciplinar para a colaboração e a responsabilidade coletiva. Em diferentes países, essas soft skills são vistas como fundamentais e precisam ser considerada parte do processo de avaliação na formação do doutorando e não mais apenas a conclusão, com sucesso, da tese original. Em paralelo, desenvolve-se o debate sobre a natureza da docência na Educação Superior num cenário de democratização do acesso, de incertezas quanto ao futuro dos egressos e de desafios e tensões geradas por novas formas de sociabilidade e aprendizado, provocadas pelas novas tecnologias de comunicação e pela inteligência artificial. A formação do doutor torna-se, assim, mais complexa e diferenciadamente exigente. No Brasil, esta discussão está apenas no início.

 

Neste sentido concluímos que (…) o sistema de pós-graduação no Brasil está estabelecido e consolidado. O novo modelo da pós-graduação em nosso país depende da institucionalização da pós-graduação nos ICTs, incluindo, especialmente, as IES.  Avançar na direção da excelência exige mobilização do conjunto dos atores envolvidos e a formação de consensos em torno de objetivos e metas claramente definidas. O ponto fundamental diz respeito à necessidade de desencadeamento de mudanças. Em um cenário de dependência de recursos externos e de alta submissão a processos regulatórios (também externos), supõe-se que a mudança só pode ser desencadeada se houver mudanças no padrão de financiamento, da avaliação e de regulação. Os cenários das políticas de fomento e de avaliação da pós-graduação passam por importantes transformações e vivem uma crise que pode gerar frustração de expectativas e insegurança normativa. A qualidade da pós-graduação não depende apenas do valor da pesquisa científica, mas igualmente da perspectiva de trabalho intelectual após a defesa, seja dentro ou fora da academia. A pós-graduação não pode formar apenas mestres e doutores altamente, mas também, estritamente competentes em técnicas de pesquisa, e sim formar cientistas profissionais com raciocínio crítico, multidisciplinar, inovador e que criem conhecimento, sabendo, para esses fins, lançar mão de ferramentas científicas para abordar problemas da sociedade. É nesse sentido que propomos uma nova visão de futuro para a pós-graduação brasileira, orientada para uma gestão com mais autonomia por parte das instituições, de uma administração do tempo mais intensiva, interdisciplinar e estruturada, capaz de acolher as perspectivas e os interesses dos estudantes ao nela ingressar e com distinção dos objetivos do Mestrado e do Doutorado, como inicialmente dialogado e discutido no Parecer Sucupira, reconhecendo que vivemos em uma nova sociedade que demanda uma nova pós-graduação. O sistema não deve ser escalonado, mas ramificado e finalístico, oferecendo aos estudantes objetivos distintos em sua trilha formativa no Mestrado ou no Doutorado, sejam eles acadêmicos ou profissionais. A formação na pós-graduação deve oferecer competências e habilidades para além do projeto de pesquisa – respeitando-se os objetivos do estudante – fornecendo aprendizagens humanísticas, éticas, de inovação e empreendedorismo e com maior integração com a sociedade. Esse processo formativo deve reconhecer os diversos interesses dos estudantes e propiciar oportunidades variadas para o seu aprendizado na academia e fora dela, seja em integração no setor público, nas empresas e na indústria ou no terceiro setor.

 

Entendemos que as IES consolidadas, uma vez que gozem de autonomia de criação e transformação dos cursos de Mestrado e Doutorado, poderá decidir pela fusão, associação, integração em redes e compartilhamento (nacional e internacional) de seus cursos. AsIES em consolidação deverão ter seus cursos previamente aprovados pelo órgão responsável. Os cursos de Mestrado e Doutorado terão seus desempenhos avaliados regularmente pela Capes, e sua frequência vai depender da avaliação do curso. Essa avaliação deve focar nos resultados alcançados em face dos propósitos e objetivos definidos institucionalmente.

 

A discussão sobre a Resolução COFEN nº 256/2001 também nos leva a considerar o impacto que essa decisão pode ter sobre a formação de novos profissionais. Se o título de doutor se torna algo acessível a todos, independentemente da formação, como isso afetará a motivação dos futuros enfermeiros e outros profissionais da saúde? A busca pela excelência acadêmica poderá ser desvalorizada, e o que antes era um símbolo de conquista poderá se tornar uma mera formalidade.

 

Por fim, ao longo deste livro, buscaremos não apenas entender as nuances do uso do título de doutor, mas também propor caminhos para que essa discussão se torne um catalisador para a melhoria das práticas profissionais e acadêmicas. A ética, a transparência e o respeito ao conhecimento devem ser os pilares que sustentam nossa sociedade. Convido você, leitor, a refletir sobre como podemos, juntos, construir um futuro onde o título de doutor não seja apenas uma designação, mas uma verdadeira representação de competência e compromisso com a saúde e o bem-estar da população.

 

A reflexão sobre o uso do título de doutor nos leva a um entendimento mais profundo das dinâmicas sociais que permeiam as profissões. Em um mundo onde a informação é abundante, a maneira como nos apresentamos pode ter um impacto significativo na percepção que os outros têm de nós. Quando um profissional se apresenta como doutor, essa designação não é apenas um rótulo; é um símbolo que carrega consigo expectativas, respeito e, muitas vezes, um certo grau de autoridade.

 

É essencial considerar o papel que os títulos acadêmicos desempenham na formação da identidade profissional. O título de doutor, por exemplo, representa anos de estudo, dedicação e, muitas vezes, sacrifícios pessoais. Portanto, quando esse título é utilizado de forma indiscriminada, a credibilidade de todos os que realmente se dedicaram a essa jornada pode ser comprometida. A confiança que a sociedade deposita em um profissional da saúde, por exemplo, pode ser abalada se o título de doutor for visto como algo que pode ser adquirido sem o devido esforço e comprometimento.

 

Além disso, a Resolução COFEN nº 256/2001, ao permitir que enfermeiros usem o título de doutor, abre um leque de discussões sobre a valorização da profissão. É uma tentativa de reconhecer o papel fundamental que esses profissionais desempenham na saúde pública. No entanto, essa valorização deve ser acompanhada de uma reflexão crítica sobre o que realmente significa ser um doutor. Será que o uso do título, sem a correspondente formação acadêmica, não dilui o valor que ele representa? A resposta a essa pergunta pode ser complexa e multifacetada.

 

A ética, portanto, emerge como um tema central nesse debate. Quando um profissional se apresenta como doutor sem a titulação formal, ele não apenas compromete sua própria integridade, mas também a percepção pública sobre a profissão. A desonestidade, mesmo que velada, pode gerar um efeito cascata, afetando a confiança que a população tem nas instituições de saúde e na academia como um todo. A credibilidade é um bem precioso, especialmente em áreas onde as decisões podem impactar a vida das pessoas.

 

Neste livro, ao abordarmos os aspectos legais e sociais do uso do título de doutor, buscaremos não apenas entender as implicações dessa prática, mas também propor soluções que promovam uma cultura de respeito e responsabilidade. A análise crítica da Resolução COFEN nº 256/2001 será um dos pontos centrais dessa discussão, permitindo que compreendamos melhor as motivações por trás dessa decisão e suas consequências na prática profissional.

 

Convido você, leitor, a se envolver ativamente nessa reflexão. Pense em suas próprias experiências com títulos acadêmicos e como eles influenciam suas interações com profissionais de diversas áreas. Como você se sente ao saber que alguém se apresenta como doutor sem ter a formação necessária? Essa discussão não é apenas acadêmica; ela toca questões profundas sobre a confiança, a ética e a responsabilidade que todos nós temos em relação ao conhecimento e à sua aplicação.

 

À medida que avançamos neste livro, espero que você se sinta inspirado a questionar, a refletir e a dialogar sobre o significado real do título de doutor em nosso contexto atual. A jornada que estamos prestes a embarcar não é apenas sobre títulos, mas sobre a construção de uma sociedade que valoriza a verdade, a ética e a competência. Vamos juntos explorar essas questões e buscar um entendimento mais profundo sobre o que significa ser um "doutor" nos dias de hoje.

 

A análise do título de doutor deve ser vista como uma oportunidade de reavaliação dos valores que sustentam nossa sociedade. Em um momento em que as informações circulam rapidamente, a forma como nos apresentamos pode influenciar significativamente a percepção pública. Portanto, é crucial que as instituições acadêmicas e profissionais assumam um papel ativo na promoção da ética e da integridade, assegurando que o uso de títulos seja feito de maneira responsável e transparente.

 

O impacto da Resolução COFEN nº 256/2001 sobre a formação de novos profissionais também merece destaque. Se o título de doutor se torna acessível a todos, independentemente da formação, como isso afetará a motivação dos futuros enfermeiros e outros profissionais da saúde? A busca pela excelência acadêmica poderá ser desvalorizada, e o que antes era um símbolo de conquista poderá se tornar uma mera formalidade.

 

Ao longo deste livro, buscaremos não apenas entender as nuances do uso do título de doutor, mas também propor caminhos que valorizem a ética e a integridade. A discussão sobre o título de doutor é, portanto, uma oportunidade de refletirmos sobre a sociedade que queremos construir, onde o respeito ao conhecimento e à formação seja um valor inegociável. Vamos juntos explorar essas questões e buscar um entendimento mais profundo sobre o que significa ser um "doutor" nos dias de hoje.

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